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MANIFESTO TENEBRAE

Não me considero um artista, mas alguém que observa e interpreta o que permanece. Desde cedo entendi que o cheiro possui uma natureza diferente. Ele não pertence totalmente ao presente. Permanece quando deveria desaparecer e retorna quando não foi chamado. O aroma é uma forma de memória mas não uma memória organizada ou confortável. É fragmentada, instável e, muitas vezes, involuntária. Talvez seja por isso que existam tantas fragrâncias.
Porque tentamos dar forma ao que não pode ser contido, capturar aquilo que, por natureza, escapa.
Existe um instante exato em que a vida começa a se decompor. E é nesse limiar entre a forma e a ruína que o cheiro nasce. O aroma é a prova invisível de que tudo está em processo de dissolução, fragrâncias são necropsias sensoriais, autópsias do instante.
Cada fragrância nasce de um momento específico, e por isso não pode ser reproduzida da mesma forma. Ela é limitada porque sua origem também é. Não crio cheiros. Condenso experiências.
Cada frasco contém algo que não pode ser totalmente explicado, apenas sentido. Para mim, não existe cheiro ruim.
Não existe certo ou errado. Íris, Oud, sangue, lavanda ou urina, tudo são manifestações da mesma matéria em estados distintos.
O valor não está no cheiro, mas na forma como ele é percebido, interpretado e transformado. Não me importa se as minhas fragrâncias irão agradar.
Não é esse o objetivo, elas existem porque precisam existir, E isso é suficiente. Tudo é estágio, tudo é verdade, e no fim, tudo, absolutamente tudo é arte.

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